terça-feira, 17 de outubro de 2017

ILHA DE PÁSCOA (EASTER ISLAND)

APRESENTAÇÃO DA VIAGEM


Quem leu a nossa última postagem, no início de 2015, lembra que que lá expusemos dois motivos para uma pausa nas nossas viagens por este mundão sem fim. A rotina que três viagens por ano estava nos impondo fazendo com que elas não tivessem a mesma emoção que tínhamos antes e a construção do Refúgio dos Viajantes na serra catarinense, mais precisamente em Rancho Queimado, numa altitude de cerca de 1.054 metros. 

O gosto de viajar voltou e a nossa casa já está toda estruturada, com plantas de todo tipo em crescimento e onde adoramos passar pelo menos três ou quatro dias por semana já que os blogueiros podem trabalhar de lá. Como dissemos na última postagem, quando reiniciássemos as viagens, seriam mais concentradas numa menor região, mais para deleite e contemplação do que turismo exploratório. A viagem para a Ilha de Páscoa vem nesse diapasão.

Há muito temos nos interessado por tudo o que diz respeito à Ilha de Páscoa mas o que nos convenceu definitivamente a visita-la foi o livro Colapso, de Jared Diamond que, numa abordagem científica acerca da decadência e extinção de civilizações, nela incluiu a falência do povo Rapa Nui e, mais intrigante, a história dos Moais por eles construídos e que remanescem na Ilha até os nossos dias com indagações insolúveis sobre as quais falaremos mais adiante. O blogueiro de férias em setembro e a blogueira, empresária com a agenda organizada, permitiram que a viagem fosse, enfim, feita, entre 21 e 29 de setembro, incluindo os dias de viagem.

A COMPANHIA AÉREA

Sopesados os horários e as escalas necessárias para se chegar ao lugar mais remoto do mundo, considerada a distância de outro ponto de terra, acabamos por escolher viajar pela LATAM. Um ponto positivo foi a pontualidade de todos os voos. Negativo o avião que faz a escala São Paulo-Santiago. Velho, superlotado, poltronas estreitas e sem espaço para esticar as pernas, mesmo sendo voo noturno. Fizemos este trecho na econômica, diante da indisponibilidade da executiva. Diferença, no entanto, quase não faria, porque a executiva é na mesma poltrona da econômica, só que na primeira fileira e com o assento do meio vazio.

Dormimos de 21 para 22 no Hotel Holliday In, muito prático já que encostado no aeroporto, muito boa qualidade e com café da mnhã, mesmo para saídas de madrugada.

Diferente do voo São Paulo-Santiago, o de Santiago-Ilha de Páscoa foi feito na executiva de um novíssimo Dreamliner da Boing, com poltronas largas e que reclinam totalmente. Muito bom serviço. O retorno seguiu os mesmo padrão de equipamento e serviço da ida, com necessidade de pernoite de 28 para 29 no mesmo hotel.

O HOTEL

Nossa hospedagem na Ilha de Páscoa se deu numa rede de hotéis  para nós muito conhecida, a Explora, desta vez no Explora Rapa Nui. Recebemos uma ótima oferta com o pagamento de diárias para solteiro, para o casal, em comemoração aos dez anos do hotel, porque já havíamos nos hospedado no Explora Atacama e no Explora Patagônia, no Parque Nacional Torres del Paine, cujas viagens já estão reportadas neste blog.

É um cinco estrelas com sistema de tudo incluído, inclusive todos os passeios/aventura, com van, cavalos, barco, bicicleta, quadriciclo, etc., tudo o que for preciso para a aventura, como motorista, guias, água e quando a situação exigir, café da manhã, almoço e lanches, com champanhe, vinho, sucos, cerveja e refrigerantes. Para os passeios, basta escolher  num salão próprio, no final da tarde do dia anterior, onde os guias estão sempre prontos para orientar a escolha. Em todos os hotéis da rede Explora não há luxo, só o necessário de ótima qualidade já que a política de todos é que você saia para explorar a região. Dos três onde nos hospedamos, o Rapa Nui se destacou, também, como tendo a melhor cozinha. O atendimento de todo o pessoal também foi muito bom e extrema cortesia, inclusive do Chef e do staff de diretores. Única crítica fica para um dos guias, contratado como terceirizado para os dias de maior movimento, que não deu a exata noção das dificuldades que enfrentaríamos na aventura mais difícil na Ilha, oferecida pelo hotel. Alguns dos que foram conosco tiveram dificuldades para terminar o percurso. Recomendamos, todavia, este hotel e todos da rede. Recentemente outro foi inaugurado no Vale Sagrado, no Peru, que lá não estava quando visitamos a região. Caso contrário teríamos nos hospedado lá, porque a tranquilidade e o profissionalismo deles para as aventuras não tem preço.

A ILHA DE PÁSCOA

A Ilha de Páscoa tem área de cerca de 163 km2 e tem forma de triângulo ou de bumerangue e foi formada pela erupção de três vulcões, todos inativos, sendo que apenas um deles, o Orongo, está com sua cratera visível, num dos extremos da ilha, fechado à visitação por esses meses, em decorrência de um incêndio criminosos nas suas bordas e que está sob investigação.

O povoamento se deu por volta do ano 700 até o ano de 1300, por povo originário das Ilhas da Polinésia, especialmente Pitcairn, que fica cerca de 1 600 km a leste da Ilha. Da costa chilena dista 3.700 km. Cultivavam batata doce, banana, cana de açúcar, dentre outros, pescavam e criavam galinhas, que eram o seu maior tesouro e que protegiam com construções de pedras, evitando o roubo por membros de outras tribos.

Em resumo, a decadência do povo Rapa Nui, segundo os estudos científicos feitos  acerca do assunto, deu-se pelo esgotamento dos recursos naturais, especialmente as florestas e vegetação, o que resultou em guerras entre os 15 clãs que lá habitaram. Desertificada a ilha, sequer a pesca sobreviveu, por falta de madeira para novos barcos. Os poucos que sobreviveram retornaram para suas ilhas de origem na Polinésia.

Mais tarde, a Ilha foi redescoberta pelo Holandês Jacob Roggeveen, num domingo de Páscoa de 1722, razão do seu nome. Posteriormente foi anexada ao Chile.

Hoje a Ilha está devastada, com pífios projetos de recuperação. Primeiro foram os Rapa Nuis, depois os ingleses com criação de ovelhas em larga escala na Ilha, depois os exército chileno que para lá levou cavalos e, quando saiu, deixou os animais. Hoje a ilha é permanentemente devastada pelos milhares de cavalos selvagens que por lá circulam não deixando nenhuma vegetação crescer, salvo uma planta baixa com sementes venenosas. Nenhum projeto para retira-los de lá. Uma tragédia ambiental, reforçada pela criação de gado que também vaga solto pela Ilha. A ilha é também tomada por muitos ratos trazidos pelos navios. Trouxeram gaviões para o controle dos ratos mas, com são muitos, hoje tem muitos ratos e muitos gaviões.

A população da Ilha conta cerca de 8.000 habitantes, maioria de Rapa Nuis que para lá retornaram. O apoio do Chile é deficiente na medida que quase tudo chega por mar e não há um porto sequer. Só um aeroporto porque os turismo, com cerca de 100 mil turistas por ano, é muito lucrativo para todos. Sente-se no ar uma mágoa do povo nativo em relação aos chilenos. Muitos, à boca pequena, diziam que estavam torcendo para o Brasil desclassificar o Chile da Copa, como efetivamente ocorreu. Devem estar felizes. 

A Ilha tem relevo montanhoso, apenas duas pequenas praias de areia branca, e escarpas verticais e muito bonitas, conforme as fotos mostrarão. Conta com boa estrutura hoteleira, com dois cinco estrelas e vários das demais categorias, além de pousadas e quartos nas casas dos locais.

Precários restaurantes e casas de lanches, sendo que os melhores são aqueles dos hotéis.

OS MOAIS

A maior motivação de todos que vão para aquele lugar mais remoto do mundo são os Moais. Conosco não foi diferente, embora tenhamos lido muito sobre a Ilha e outras coisas também chamaram nossa atenção.


Segundo os historiadores, os moais teriam sido esculpidos pelos Rapa Nuis por volta do ano 1300. São gigantescas estátuas de pedra, com altura média entre 4,5 e 6 metros, a maior tem mais de 20 metros e pesam entre 30 e 80 mil quilos cada uma. Embora pareçam todos semelhantes, diferenças sutis existem entre eles, uns mais magros, outros barrigudos, posição dos braços, uns sentados sobre as pernas, etc. Na média, têm nariz alongado, orelhas compridas em formato retangular, grossas sobrancelhas e lábios finos. Os braços são apoiados junto ao corpo em posições diversas Alguns sustentam que no início representavam um deus local, mas a maioria representava líderes locais que eram postados de costas para o mar e de frente para a comunidade onde eles viveram, transmitindo boas coisas para a comunidade, como proteção e boas colheitas.


O local onde cerca de 900 moais foram esculpidos fica no Parque Nacional de Ranu Raraku,  uma montanha rochosa, em volta da qual existem dezenas de moais que não foram transportados para o local para onde estavam destinados. Sustentam que muitos deles eram testes para os escultores, homens pagos pelas comunidades para esculpirem os moais, até alcançarem a habilidade para aceitarem encomendas. Como as fotos mostrarão, a maioria deles, pelo peso, estão enterrados. Calcula-se o tamanho de cada um pelo tamanho da cabeça, que representava 1/3 do tamanho da estátua. Há muitos moais que restaram na montanha rochosa parcialmente esculpidos e lá foram abandonados com a decadência da Ilha.


O grande enigma é como, sem tração animal, só pela força dos membros das pequenas comunidades, os moais foram transportados para as suas bases. Os nativos sustentam que eles iam caminhando, ou seja, de pé, sobre trenós e  rolos de madeira, puxados com cordas. Outros que eram levados deitados. A verdade, todavia, é que, pelas condições do terreno, aclives e declives acentuados e considerando o peso, quaisquer dessas soluções sucumbe já que afundariam no terreno. Daí decorrem outras teorias como a eliminação da força da gravidade e, até, extraterrestres. 


Há um caminho por onde eles eram transportados para uma parte da ilha, onde remanescem vários caídos, com a face para baixo, todos com o pescoço quebrado já que o nariz batia no chão primeiro e quebrava o moai no seu ponto mais vulnerável. Dos cerca de 900 esculpidos, apenas 300 chegaram ao seu destino. Segundo os nativos, os Rapa Nuis não se desolavam com a perda de anos de trabalho e, em alguns casos, a queda do moai próximo da comunidade. Acreditavam que era desígnio dos deuses, por terem feito o moai com defeito ou que ele não estava à semelhança do homenageado. É chocante olhar para aqueles gigantes caídos com o pescoço quebrado e sentir a frustração que seria para nós uma queda naquelas condições.


Em outra mina, de uma pedra avermelhada, eram construídos os chapéus dos moais, também muito pesados mas mais fáceis de transportar porque eram circulares.


A maioria dos moais está caída já que, com as guerras entre os clãs que dominaram a ilha, a maior humilhação a ser imprimida aos vencidos era derrubar os moais daquela comunidade. Outros foram erguidos para que os visitantes tivessem noção de como eram originalmente. Os mais impressionantes são os quinze moais recuperados pelo Japão e que representam os quinze clãs que dominaram a ilha. Próximo ao centro do povoado está o único moai cujos olhos foram reconstruídos. No museu local existe parte de uma cabeça com o olho, feito de conchas marítimas, parcialmente destruído. 


OS PASSEIOS


O Explora Rapa Nui oferece cerca 11 passeios a pé conjugado com vãs, 04 de bicicleta e 03 pelo mar. Preferimos fazer os mais relevantes, conjugando vãs e longas caminhadas pelo locais onde havia algum interesse histórico ou paisagístico.


Imperdíveis são os passeios para o local onde os moais foram esculpidos, o caminho onde os moais eram transportados com a maioria deles caídos e com o pescoço quebrado, para o local onde estão os 15 moais representativos dos clãs que dominaram a ilha, um passeio para o local onde os chapéus dos moais eram esculpidos, outro para andar pelos túneis deixados pelas lavas vulcânicas, sendo que um deles vai até uma escarpa que dá no mar. Um passo em frente e você dará no vazio já que fica no meio da escarpa muito alta. O visual, todavia, é fantástico. Outro passeio interessante para ver a natureza da ilha é o mais difícil de todos, com subida e descida de três montanhas,  longas caminhadas até as bordas dos penhascos que dão no mar e, no final, a descida por um penhasco íngreme e perigoso. Recomendamos outro em direção à Praia de Anakena, desde um local com desenhos rupestres nas pedras. No percurso, várias plataformas de moais e especialmente a estrutura dos galinheiros onde as galinhas eram trancadas no período da noite para não serem furtadas pelos inimigos já que tinham grande valor. A Praia Anakena, de areias brancas, também tem plataformas com moais, formando uma bela paisagem entre os coqueirais.


Outros recomendados são a travessia da ilha desde os desenhos rupestres até o local onde está a grande plataforma dos quinze moais e ao museu localizado no povoado que não é muito rico em peças mas explica, com grandes cartazes, com relatos e desenhos, a história da ilha e dos moais.


O passeio ao vulcão Orongo, na extremidade sudoeste da ilha próximo do centro do povoado e do aeroporto, com a cratera visível, merece ser feito. Para nós não foi possível porque uma queimada criminosa devastou as suas bordas e estava interditado pela polícia para a  investigação da autoria.


Na maioria dos percursos, muitos moais solitários ou em plataformas, muitos círculos em pedra onde eram feitas as plantações dos Rapa Nuis, já que retinham  mais água, o mesmo ocorrendo nos locais onde os túneis de lava desabaram, inclusive com grandes bananeiras, abacateiros e outras árvores mais robustas. Pareciam oásis na vegetação rasteira da ilha. Muitos vestígios, também, da fundação das casas do Rapa Nuis, que eram construídas em forma de barco, conforme as fotos mostrarão.


CONCLUSÃO


Apesar das dificuldades para nós brasileiros, especialmente quem não é de São Paulo, em decorrência das várias e inoportunas conexões, vale a pena visitar a Ilha de Páscoa, especialmente se hospedando num hotel como o Explora Rapa Nui. É um lugar único no mundo. Sua história e seus Moais são impactantes e inéditos. Não seríamos viajantes na sua inteireza sem que conhecêssemos esse lugar incrível.


Outras lugares com essas características ainda precisamos visitar. Faremos, todavia, com calma e no devido tempo, enquanto curtimos nosso pedaço do paraíso na altitude da bucólica Rancho Queimado. Quando o fizermos, certamente tudo estará aqui como sugestão e deleite para os que, como nós, adoram viajar. Beijo a todos. Narcísio e Dirlei. 



Vegetação alienígena, importada da Austrália

Círculo de pedra para reter água para as plantas

Moais derrubados pelos inimigos com seus chapéus vermelhos no solo

Grupo de moais recuperados pelos britânicos


Cavalos deixados pelo exército chileno depredando a Ilha de Páscoa

Túnel de lava

Árvores nascidas onde os túneis de lava desabavam

A blogueira e a plantação de banana nos túneis desabados


O blogueiro no fim de um túnel de lava no meio do penhasco


Os blogueiros no fim do túnel de lava a um passo do abismo

A blogueira, no mesmo local

As escarpas vulcânicas da Ilha de Páscoa

Atores locais representando o povo Rapa Nui

Plataforma de moais próximo do povoado

O blogueiro e o moai com olhos ao fundo




Esta e as próximas são moais que ficaram próximo da montanha onde foram esculpidos





A blogueira e um moai inacabado ao fundo

Local do nascimento dos moais


Com o peso de 30 a 80 toneladas, os moais afundavam quando não tinham plataforma de pedra

Moai inacabado


Vista dos 15 moais desde o local onde foram esculpidos

Na parte inferior um moai quase acabado. Na parte superior, vários iniciados


Os belos penhascos da Ilha de Páscoa

Vulcões inativos na ilha de Páscoa

Caminho de transporte dos moai, com um que caiu antes do destino

Caminho dos moais, com um caído à esquerda


Paisagens típicas do litoral da Ilha de Páscoa


Florestas isoladas de eucalipto australiano

Paisagens da Ilha de Páscoa



Desertificação da Ilha de Páscoa



Plantação de banana nos círculos de pedra

Pedra magnética onde os Rapa Nuis testavam o equilíbrio dos barcos

Os 15 moais representando os 15 clãs que povoaram a Ilha de Páscoa

O blogueiro com os 15 moais ao fundo


Paisagem ao fundo dos 15 moais

Paisagens da Praia de Anakena



Local onde eram esculpidos os chapéus dos moais

Lateral do chapéu dos moais para colocar uma madeira para rolar com outro com o mesmo furo

Museu com pintura do povo Rapa Nui

Restos de cabeça de moai com olho feito de concha marítima

Instrumento usados pelos rapa nui

Chapéus dos Rapa Nuis abandonados


Fundação da casa típica dos moais, em forma de barco

Os 15 moais